Essa arte e cultura que intrigam

 

A cultura de nossa Vila Macuco manteve por muito tempo a marca dos desbravadores que migraram de Sergipe e Alagoas para o sulbaiano no final do século XIX. Mas não foram só eles. Nosso amálgama tem sertanejos descendentes dos galegos, árabes, europeus, índios, negros em mistura secular. Foi somente assim que o sul da Bahia ganhou impulso. O arruado se estabeleceu por volta de 1910, os sergipanos fizeram da vila um primor na produção de uma panificação requintada e o amontoado de casas quase não crescia no vaivém das roças. A vila se debruçava sobre os folguedos populares: pastorinhas, folia de Reis e um ingênuo micarême*. E havia também uma filarmônica (dita de seo Praxedes) e a banda de Pífanos de mestre Pautílio lá pelos anos 60.

 E a vila, quando virou cidade (1959), possuía um grupo de pessoas talentosas na construção de carros alegóricos preparados para os desfiles pomposos da festa anual de emancipação. E os presépios eram um capítulo à parte.  Além disso se gostava de cinema: foram dois. Euforia mesmo eram os circos que se armavam nos espaços vazios da vila/cidade e que, frequentemente, traziam dramas e números musicais com artistas de expressão nacional. Era uma vila bem diversa e se poderia dizer que os sertanejos pousaram aqui com orgulho de sua própria cultura. A tal televisão só entrou por aqui em 1969. A confrontadora do rádio ganhou um totem em praça pública para deleite da massa e, através dela, nossa realidade foi mudando.

 

Evidentemente a música parece (o pessoal do violão: mestre Alcides, Dedeo do Cavaquinho, Pinheiro do Sax) ser o viés artístico mais forte, muito embora aqui abundem artistas plásticos de alto nível (na maioria autodidatas) até hoje: Carlos Albérico, Rogério Tomás, José Delmo, Jó de Olivença, Terezinha Sanjuan...e os escritores: Manoel Lins, Antônio Lopes, Ramon Vane e mais no passado tantos outros que cometo a falta de não lembrar. Não vou falar do cordel. A vila sempre foi incansável em ousadia.

Até que nos anos 70 (1976) uma moçada resolveu organizar um grupo de difusão literária e, logo, o teatro entrou em cena. Esses jovens publicavam um jornalzinho mimeografado com poemas, contos (Tablado Literário) indicação de livros, que trocavam entre si. Eu e Ramon Vane à frente reunimos Maria Helena Cardoso, Marialda Silveira, Gilda Lins, Jidebaldo Sousa, Gal Macuco, Gildásio Gonzaga e tantos outros desvairados (a memória me faltou para citar todos). A primeira peça foi Os Presos do Camacã, de Antônio Júnior (Itabuna). Viajávamos para as cidades próximas. Os espaços de apresentação eram no Clube Social de Buerarema, onde aos domingos promovíamos as tardes de improviso. Se existe algum registro disso é graças aos Valadares que eram os reis da fotografia documental em Buerarema. A experiência evoluiu a ponto de montar Cristo Crucificado (Carlos Solórzano, Guatemala), que traduzimos sem saber que este é um dos maiores dramaturgos da América Latina. A experiência, no entanto, se desarticulou em 1978, quando fui estudar na EMARC (Uruçuca), depois Salvador.

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A sequência disso foi o Grupo de Arte Macuco que estreou com a vertente do teatro popular com a peça Cacau Verde (José Delmo). Pode-se dizer que esta foi uma das experiências de grupo de teatro mais duradouras e inquietantes de Vila Macuco. Além do teatro, Delmo criou um evento anual chamado Feira de Arte de Buerarema, enquanto durante o resto do ano promovia peças populares extremamente críticas. Era plena ditadura. Depois de enfrentar falta de apoio da própria comunidade, a experiência arrefeceu após 15 anos. Depois disso, Buerarema deixou de ser o centro do reboliço anual de boa parte dos artistas da Bahia. A Feira trouxe um olhar contemporâneo ao reunir anualmente na cidade grande parte das expressões artísticas e projetou a velha vila para toda a região grapiúna.

Depois de um hiato, afastado da cidade, não tive conhecimento de outras tentativas de grupos de teatro. Mas no início dos anos 2000, outra geração começou a se organizar para produzir um teatro de ocupação: pelas ruas, pelos galpões, pelas bibliotecas, onde fosse possível se apresentar. Capitaneados por Anderson Andhy e Valmir Mendes, uma nova geração denominada de grupo A Tribo se estabeleceu. Vieram Diego Gonzaga, Cleide Jardim, Cristiano Nunes, Luciano Nobre, George e Georgiano Mendes, Chrislaine Witch dentre outros que totalizavam 72 membros. Esse grupo introduziu o teatro de repertório com vários textos populares, dentre os quais Retalhos se transformou no carro-chefe, assim como a Paixão de Cristo. O grupo existe até os tempos atuais e é residente da Casa de Cultura Jonas&Pilar.

A Casa de Cultura Jonas&Pilar é a face visível do Instituto Macuco-Jequitibá e desde 2012 é a primeira instituição formalmente organizada para promover a arte, cultura, meio-ambiente e a cidadania. Isso só foi possível porque Marcelo Ganem (músico pioneiro ligado ao movimento cultural da cidade) cedeu em comodato o casarão que pertenceu aos seus pais bem no centro da cidade. Desde então a velha vila vive outro tipo de realidade: promover a arte e a cultura integrando-se ao sistema organizado da política de cultura em âmbito estadual e federal. Isso quer dizer que, desde então, desenvolveu-se uma nova cultura de participação do sistema de editais para financiar as atividades promovidas pela instituição. Além disso, a política que norteia a Casa de Cultura é oferecer território para as iniciativas artísticas. Em 2013, a fim de colocar a Casa em movimento, convidou-se o grupo A Tribo para se transformar em grupo residente.

 

Grupos populares de dança e o potente movimento de capoeira da cidade possuem uma participação efetiva nas atividades da casa. O surgimento dessa instituição representa, sem qualquer sombra de dúvida, um novo marco no tradicional movimento artístico da cidade. Agora, tudo avança para além do deleite e se integra a economia da cidade gerando emprego e conhecimento.

*MicarêmeEra um pequeno Carnaval que acontecia na proximidade do final da Quaresma. Um festa profana profundamente ligada a tradição e ao controle da fé Católica que sempre soube tolerar bem a convivência com os dois mundos.

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Gideon Rosa

Ator, jornalista, bacacharel em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia (1982) e Mestre em Artes Cênicas pela Escola de Teatro da UFBA (2006), Diretor Artístico voluntário e cofundador da Casa de Cultura Jonas e Pilar desde 2012.