Memória de Macuco

A feira acontecia aos sábados na Praça do centro da cidade e era o melhor dia do comércio pois o movimento era grande. O serviço de alto-falantes “entrava no ar” mais cedo dando informações de utilidade pública, anunciando novidades, colocando músicas de cantores que estavam na moda. A entrada e saída da cidade era pela Rua da Saboaria, passando em frente ao Armarinho de Seu Babá. Na esquina, perto da ponte que dava acesso ao São Bento, ficava o pessoal que ajustava as ferraduras de animais: os cascos eram recortados com alicates-torqueses, ajustados com lima grossa, antes de cravejar a nova ferradura. Chegava muita gente dos povoados vizinhos para fazer a feira em Buerarema. O pessoal que trabalhava nas fazendas vinha prestar contas, receber o pagamento semanal, ajustar as empreitadas, vender e comprar produtos da cidade.

As lojas, as casas de ferragens, a banca do jogo do bicho - O Velocino de Ouro -, as farmácias Cabral e Santana, o Banco da Bahia, as marinetes, os primeiros e inovadores expressos da Viação Sul-Baiana sinalizavam progresso da cidade.

As barracas da feira eram armadas na noite anterior. Para carregar os produtos da feira eram utilizados caçuás (pelo pessoal da roças), carrinhos de mão, cestas de cipó-verdadeiro ou bocapios. Os mateiros aproveitavam o dia para resolver pendências, marcar um batizado, comprar coisas ou encomendar ferramentas a Seu Antônio, o ferreiro da cidade. Em frente à oficina ficava a lojinha de madeira de Seu Dionísio que vendia fogos de artifício. A feira era dividida por secções: hortaliças, frutas, farinhas e grãos; carnes diversas, mocotós, peixes, mariscos, caranguejos; produtos de limpeza, sabões, querosene Jacaré, bojo de vidro, pavio para o candeeiro ou aladim.

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Havia o pregão dos vendedores de cordel, de perfumes, artigos contra mau-olhado, remédios milagrosos. Com gestos largos, voz impostada, os camelôs chamavam a atenção e ofereciam xaropes, unguentos, emulsões que prometiam curar reumatismo, dor de dente, febre, lombrigas, limpeza do sangue, fortificantes que recuperavam os adoentados, que abriam o apetite dos meninos amarelos e davam alegria aos velhos. Na feira, Seu Benzinho tinha uma barraca grande que vendia manteiga de qualidade, requeijões e queijos da terra. Vindo da Rua dos Artistas, ficavam as barracas de farinha e derivados, os feijões, os grãos em geral.

No perímetro do Jardim ficavam as barracas de hortaliças. Ambulantes ofereciam animais silvestres abatidos e tratados, salgados ou moqueados. As barracas de tantas Marias neste dia tinham protagonismo pois vendiam refeições fartas a preços módicos. A barraca de dona Pulú era uma das mais procuradas. O cheiro de café feito na hora; os caldeirões envoltos em toalhas brancas para conservar o calor continham mingaus diversos. Vendia-se refresco, cachaças, licores, batidas de fruta, os preparados com ervas e raízes. Próximo dali, animais vivos - como leitões, frangos, perus -, apeados, amarrados ou confinados eram oferecidos. E, no final da feira, era comum ocorrer provocações, desencontros entre bêbados ou quase, ajustes de contas tendo como saldo pessoas feridas em briga de faca. Os soldados levavam o arruaceiro para dormir na cadeia. O ferido era encaminhado às mãos hábeis do enfermeiro Antônio Preínha que pacientemente, com voz branda, melíflua, entre consolo e conselhos, limpava, medicava e costurava...


Nota: O texto acima foi feito baseado em fatos registrados na memória. Embora tenha procurado ser fiel aos acontecimentos, pode, eventualmente, conter incorreções

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Fernando Berti Tomas Sanjuan

Natural de Buerarema, engenheiro mecânico, cronista, autor do livro: “Foi Assim: Memória de vinte estudantes que passaram pela Emarc”.