“A Religiosidade, como Elemento Cultural

da Nossa Gente”

Começo esse texto, promovendo uma reflexão sobre os aspectos religiosos da nossa cidade a partir de uma frase célebre de Karl Marx, onde ele afirma: “a religião é o ópio da sociedade”. Dialogando a partir dessa reflexão, podemos afirmar que viver coletivamente envolve crenças que se revelam nas condutas e se materializam no cotidiano vivido, o que inclui a valorização, não só da dimensão simbólica dessas condutas, como também da dimensão cultural reveladora dessas crenças.

Ouvindo pessoas ou lendo os manuscritos do início da formação da Vila Macuco, identificamos que o catolicismo foi uma das religiões predominantes para a nossa formação religiosa e nos influenciou sobre vários aspectos. Certa vez, em conversa com o ator e artista plástico Rogério Tomás, filho desta terra, ele mencionou que o seu tio avô Pe. Luiz Sanjuan da ordem franciscana, oriundo da Espanha, se fez presente no início da formação da Vila Macuco e foi o primeiro pároco a contribuir efetivamente para a formação religiosa do nosso povo, através da propagação das escrituras, alimentando assim a nossa fé, crenças e os anseios espirituais da nossa gente. Vale ressaltar, que concomitante ao nascimento da nossa Vila, Pe. Luiz Sanjuan contribuiu também para a fundação da Igreja Matriz Senhora Sant’ana, sendo “Ela” eleita a nossa padroeira. A referida igreja tinha uma arquitetura invejável, com influência gótica, localizada na Rua Antônio Batista. Lembramos, que nesse período, as atividades religiosas a exemplo das missas, quermesses e procissões se configuravam como importantes eventos, de caráter religioso, mas também politico-cultural, alimentando assim, desde os primórdios as dimensões político, cultural da nossa comunidade.  

Nesse despontar da história religiosa da nossa comunidade, eis que surge a figura do Pe. Granja, considerada uma das mais emblemáticas, enquanto dirigente religioso, quiçá político. Afinal, quem viveu nos idos dos anos 60 e 70 em nossa cidade, sempre ouviu uma “história - estória” sobre o Pe. Granja.  Homem de temperamento forte, com discurso persuasivo, conduzia com mãos firmes seus fiéis. Lembro-me ainda criança, ouvi os mais velhos conversando sobre o Padre, que mesmo depois da sua morte causava e era assunto em nossa cidade. Quem nunca passou pelo beco do cinema onde Pe. Granja morreu, fazendo o sinal da cruz? Muitos de nós inclusive, cortávamos caminho como diziam os mais velhos, para não passar por aquele passeio.

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Entretanto, a fé da nossa gente ainda naquela época, encontrou raízes também no protestantismo, em 1918 foi fundada a primeira Igreja Batista de Buerarema, tendo como referência religiosa, o saudoso Pastor Freitas Ramos, homem sério, dono de uma sapiência ímpar, de estatura pequena e marcante, intelectual de fé, que apostou na religiosidade sem perder de vista também a educação da nossa cidade. Conforme mencionou o escritor Antônio Lopes numa das suas entrevistas cedida a Gideon Rosa, estabelecendo um comparativo entre essas duas importantes lideranças religiosas da nossa cidade, Pastor Freitas não usava do proselitismo nas suas relações, sejam elas de fé ou política, entretanto, essa era uma característica mais próxima do líder católico Pe. Granja. Mas é inegável que ambos contribuíram imensamente com a nossa comunidade para além da religiosidade, a exemplo da educação, o Padre foi um excelente professor de latim e o Pastor da língua portuguesa.

Mas não paramos por aqui, tempos depois, seguíamos com a diversidade religiosa, que também já se manifestava, com a energia dos nossos ancestrais, através do canto dos orixás.  De acordo com Pai Joca, em conversa com o professor, poeta, artista e diretor, Anderson Andhy, Mãe Nilza, fundadora do Terreiro Iemanjá, se faz presente em nossa comunidade, desde a década de 60, assim como não podemos esquecer a importante contribuição também de D. Filinha, dirigente religiosa de matriz africana, para a nossa cidade.

Embora houvesse naquela época uma invisibilidade ainda maior, do ponto de vista do reconhecimento das religiões de matriz africana, ainda assim, tais terreiros de candomblé ou umbanda já se materializavam clandestinamente no cotidiano da nossa gente. Esse negacionismo também se aplica a Doutrina Espírita, que tem origem na França, entretanto na década de 70, através do dirigente religioso José Ivan dos Santos, o espiritismo chega também a nossa cidade, promovendo inúmeras indagações a exemplo da reencarnação, com o lema da caridade.

Desse modo, podemos dizer que a nossa cidade foi forjada por uma diversidade religiosa, e para tanto, precisamos compreender e valorizar as contribuições que cada religião trouxe para o nosso povo ao longo da nossa história, afinal a melhor religião é aquela que nos ajuda a ser uma pessoa melhor. Concluímos esse texto, reafirmando Marx: “a religião é o suspiro da criança acabrunhada, o coração de um mundo sem coração, assim como também o espírito de uma época”, “Ela” é o ópio do povo”!  

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Rita Maria de Souza 

Ou Rita de Coleto, historiadora, professora da rede pública de ensino, escritora, filha dessa terra, feminista, ativista social, antirracista, ativista dos direitos humanos.