Farinha de Buerarema: produção, comercialização, vetor de referência cultural e identitário.

O encontro, ocorrido de forma virtual, não eximiu as pessoas da troca calorosa e descontraída de um bom papo à moda das casas de farinha.  Verdadeira “farinhada” de ideias, conceitos e causos, juntaram-se ao mediador, diga-se de passagem bem humorado para a ocasião, Roque de Averci e Sérgio Fernandes (produtores de farinha), Gilmar da Farinha (comerciante de farinha) e Jorge Moura (Secretário da Agricultura).
 

Grudado ao seu saco de farinha, ouro de Buerarema, Roque, filho de  Averci, grande produtor da região do Santana, já abre sua fala dizendo que “o pirão não pode faltar”, “cresci os dentes na casa de farinha”, “a gente acordava três horas da madrugada para começar a farinhada.” Para fazer uma farinhada é preciso passar por algumas etapas – arrancar, raspar, ralar, torrar. Reconhece que a troca cultural, festiva que ocorria no processo de produção se perdeu por conta do advento da tecnologia que suprimiu alguns afazeres que envolvia uma quantidade maior de pessoas.
 

Aponta que seus principais compradores estão em Brusque, Santa Catarina, onde vivem muitas pessoas de Buerarema, e Vitória da Conquista. Indagado sobre qual seria a melhor farinha do mundo, responde que “após viajar por vários lugares, a melhor é a Buerarema”. 

“A farinhada é a expressão de uma luta coletiva.”, resume toda a entrevista.

Sergio Fernandes, filho de Arlindo do gás, proveniente de uma comunidade de agricultores familiares, envereda por outro caminho: o da culinária e do uso diverso dos derivados da mandioca. Da manipueira, como líquido de finalidades amplas à maniçoba como prato rico da culinária nordestina, alcançando o uso afrodisíaco da tapioca. 
 

Em relação ao processo econômico, ele percebe que as tradições não têm sido repassadas para as gerações, a concorrência “injusta” com o produtor de larga escala faz com que pequenos produtores percam o estímulo da produção artesanal. Rotineira realidade!  Orgulhoso e consciente de sua condição de agricultor familiar, encerra dizendo que “A gente tem essa condição de ser homem da roça.” 

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“Gilmar da Farinha” já não é apenas um nome, é uma marca, que leva Buerarema para o mundo através de um produto desejado por muitos na região, no estado, no país. Filho de Seu Coló e Dona Zezita, teve 9 irmãos, aprendeu com seu pai a arte de mercar farinhas, desde a montagem da barraca na feira-livre até a escolha dos produtos pela textura, nível de torração, e a fazer investimentos na área econômica. Descreve detalhes de como a feira se instalava, seu fluxo, a chegada das tropas de mulas e a distribuição do produto aos barraqueiros, que começava desde o dia anterior à comercialização.

Do toque na ponta dos dedos para avaliar a textura fina, média ou grossa da farinha à precificação, ele traça uma linha sobre o valor do produto, sua desvalorização nos dias atuais, cita produtores que a faziam artesanalmente com uma qualidade excepcional: Caburé, Ilde, Reinaldo do Santana, dentre tantos outros.

Gilmar da Farinha se consolidou numa marca. Foram dois anos fora da cidade, mas a sua percepção sobre o momento de declínio da comercialização da farinha o fez retornar para redimensioná-la pois se encontrava um tanto estagnada. Inferimos que ele se tornou o ”Guardião da Comercialização” da Farinha de Buerarema.
 

Com visão empreendedora e técnica, o mediador convida Jorge Moura, Secretário da Agricultura, a responder uma pergunta de imediato. “-Produzir a Farinha de Buerarema é algo rentável ou não?”. Nesse sentido, muitas discussões se arvoram em torno do custo da produção, rentabilidade. Fazendo uma viagem transcontinental abrem-se os conceitos de Segurança Alimentar, o que gera investigações sobre a inserção do homem do campo nesse processo econômico. Precificação, questões agrárias, produção rudimentar fazem uma janela de reflexões pertinentes sobre a mandioca como lastro alimentar nutricional para a manutenção da vida em comparação com países de África. Envereda-se o instante informativo acerca da produção local de mandioca, sobre a área plantada, uma percepção de iminente implantação de um curso técnico de práticas agrícolas para dar funcionalidade às escolas de ensino médio bem como garantir a permanência do homem na terra, evitando assim seu êxodo, realidade altamente adversa ao desenvolvimento das práticas agrícolas. Momento rico em que descrições dos ciclos biogeoquímicos foi pontuado, ao se pensar numa política pública de correções dos solos locais quando se compartilha a informação de que há uma toxidez pelo excesso de alumínio. Por se tratar de uma pessoa engajada na militância da produção agrícola regional, com valorização da sustentabilidade, tornou-se indispensável o capitulo sobre a marginalização do campo como vetor político.
 

Por fim, e por se tratar de um poeta, de um musicista, exímio tocador de sanfonas, que ama a alma nordestina, Jorge Moura exalou poesia para cintilar a festiva noite. “Então, a sua poesia é uma poesia mobilizadora, - dizia ele ao mediador-,  de  chamar à atenção de todo mundo para que a gente não possa perder esse processo que é mágico, cultural, não apenas econômico e de sustentabilidade de nossa comunidade.”

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Anderson Andhy

Professor, Licenciado em Letras , Bacharel em Direito, Especialista em Leitura e Produção Textual. Especialista em Sexualidade Humana e Linguagem ,
Mestrando em Ciências Políticas, Gestor Cultural e Pós-graduando em Gestão Cultural.
Ator, Diretor, Produtor de Teatro, Produtor Cultural.                                                   Colaborador da Casa de Cultura Jonas & Pilar – Buerarema-BA,
Conselheiro do Instituto Macuco Jequitibá – Buerarema- BA e
Diretor-fundador de grupo de teatro A Tribo – Arte e Sensibilidade