Cinema

Ao rememorar os áureos tempos do cinema em Buerarema, o mediador chama à atenção os espectadores para ouvirem a canção d’ Os Incríveis, “O milionário”, que abria todas as sessões do Cine Maracanã.

 

O primeiro convidado da noite, Paulo Belini, escritor, contista, logo após ouvir os acordes do tema inconfundível da abertura, ao que pergunta o mediador sobre quem era o lanterninha mais complicado de se lidar no cinema, sem pestanejar, deste instante em diante, dispara frenético a contar todos os causos mais engraçados e misteriosos. Bellini cita Gerson como o lanterninha mais atento e ordeiro que controlava todos os amassos, os cigarros e os beijos mais calientes. Relembra que aqui no cinema muitos casamentos foram feitos e outros tantos desfeitos.

Que certo dia, o senhor Juca, por quem nutria uma grande admiração, anunciou na cidade, que iria exibir um filme gratuito para os alunos do Colégio Enedina Oliva que tivessem sido aprovados. Foi um verdadeiro burburinho na cidade. O filme exibido foi “Marcelino, pão e vinho.”

Com o tempo, o Cine Juracy se transformou no Cine Maracanã com suas matinées e soirées. Também relatou que havia outro cinema de grande porte na cidade: o Cine Cabral, que hoje deu lugar à agência do Banco do Brasil. Por se tratar de um cine-teatro, o Cine Maracanã recebera muitos artistas famosos nas décadas de 1960/1970, tais como alguns membros da Jovem Guarda: José Roberto, com seu com seu pente e seu cordão de ouro, objetos da moda naquele período, que após uma grande confusão por conta das tietes, perdera o dito pente, que ele era quase um amuleto. Dias depois, não se sabe como, o pente aparecera na casa de um de seus tios. Sobre os filmes, Beline tinha uma lista gigantesca pra citar; era um cinéfilo profundamente apaixonado. “Era uma vez no Oeste”, “O candelabro italiano”, “Ben Hur”, “... E o Vento Levou”, são somente alguns dos vários filmes que tivera visto na grande tela do Cine Maracanã. Em 1971, no grande palco aconteceu o Festival da Canção, em que Crisvaldo Monteiro, Carmen Japonesinha, Marcelo Ganem e tantos outros artistas locais despontaram para o sucesso. Mas a história não termina aí. Lembrou de detalhes incríveis: a cortina vermelha que se abria,  de Waldick Soriano e principalmente a história em que num dos filmes, Jane Morranne cantava enquanto “Vera Cão” (Vera Lúcia Aranha) subia nas poltronas para imitar a cantora. Todo o cinema parou para assistir à sua excêntrica apresentação. Impossível não reconhecer Vera dando um show. Lembrou de China e João Rocha, importantes colaboradores do cinema de Juca.

O segundo convidado da noite, José Raimundo, aguardado por todos os espectadores com muita ansiedade, era o homem mais inteirado de todas as coisas que aconteceram em um dos melhores cinemas da região. Chamá-lo por José Raimundo é algo muito difícil, quase ninguém reconheceria, todavia o popular Vermelho povoa a memória de todos os frequentadores do cine Maracanã.

Foram 12 (doze) anos dedicados ao cinema: baleiro, zelador, pintor de tabuleta, operador de fita, locutor, fala como uma criança entusiasmada sobre a sua gratidão em ter participado da história cultural de Buerarema.

Quando perguntado pelo mediador sobre quais filmes eram os mais assistidos na época em que era o operador de fita, lembra que os de Bang Bang, Faroeste, Kung-Fu eram os mais cotados da audição. Lembrou que seu Juca trouxe um filme chamado “Punhos de Aço” e que fez a maior propaganda de todos os tempos na cidade, inclusive mencionando que devolveria o dinheiro para quem não gostasse do filme. Ao final da sessão, todos de forma exultantes aplaudiram de pé o filme. “Essas coisas que só aconteciam em Buerarema”, lembra sorrindo.

Relembrou de uma das figuras mais incríveis de Buerarema, João Calça-Frouxa, pessoa diferenciada, que possuía transtornos mentais, querida por todos da cidade, já era costumeiro quase sempre que ele tentaria lutar com os atores na tela do cinema, às vezes até, com a tabuleta do filme exposta na frente da Prefeitura Municipal.

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Fundado em 1938, o cinema foi com certeza um equipamento cultural, talvez o único que fazia a ligação entre Buerarema e o mundo. Seu Juca, homem muito respeitador, levava ordem também para o seu cinema. Quando um dos espectadores não cumpria com as regras estabelecidas de comportamento dentro do cinema, este era notificado pelo próprio Juca e recebia uma suspensão que, às vezes, durava meses. Era como se fosse eterno castigo, pois a tendência era que o cinéfilo ficasse isolado na praça, tristonho, murcho, o coitado. 

 

Indagado pelo mediador sobre o Beco do Cinema, este ficou muito constrangido em responder, pois dizem as boas e as más línguas que o lugar era o pós-lazer depois das sessões. “A dama do lotação”, quase uma pornochanchada, foi um dos filmes mais exibidos no cinema, mas que o recorde de bilheteria foi mesmo “Roberto Carlos em ritmo de aventura”. Houveram algumas situações muito complicadas, em que a censura não permitia acessos a alguns filmes em sua integralidade.

Lembra-se que um filme chamado “Como se nasce, como se morre”, um documentário, foram necessárias duas sessões para exibição separados homens de mulheres. Censura Federal. Naquele tempo, apesar de precária, já havia uma política de distribuição e valorização do cinema nacional. Muitos filmes eram obrigatórios dentro de pacotes de aluguéis para garantir sua exibição em cinemas do país inteiro. Infelizmente, eram dias amargos em relação à bilheteria, pois havia uma grande evasão de espectadores que não valorizavam a produção nacional.

E lembra profundamente que muitas pessoas que nunca haviam ido ao cinema, aguardavam o dia da Sexta-feira Santa para poderem assistir a “Vida, paixão e morte de nosso Senhor Jesus Cristo”, um dos grandes filmes do cinema internacional; garantia de bilheteria. Lembrou da estrutura do maquinário, que era manual e usavam-se dois carvões e que as fitas de 5 mm eram quase que uma obra de poder manuseá-las e recuperá-las para que não houvesse problemas durante a exibição.

O cinema era o único meio de diversão de Buerarema e já recebeu grandes nomes da música nacional: Fernando Mendes, Jerry Adriani, Eliana Pittman, Agnaldo Timóteo, Wando, dentre outros.

O terceiro convidado da noite, Paulo Guirra, cinéfilo de carteirinha, abre sua fala ressaltando que o Cine Maracanã pode ser considerado como a base da inicialização cultural em Buerarema.

Lembra que, por ocasião da exibição do filme “O Dólar Furado”, João Calça-frouxa deu uma voadora na tabuleta que ficava à frente da prefeitura, por não concordar com a imagem ali exibida. Tendo o que convocar, com urgência, Vermelho para fazer o reparo.

Paulo, muito mais à vontade, lembra que o Beco do Cinema era uma espécie de motel a céu aberto, que não podia relatar nenhuma situação ali passada para não criar problemas às famílias Bueraremenses, pois muitos e muitas se encontram casados, constituíram famílias, etc.

Lembrou também de episódios da ditadura, em que uma Kombi preta passava pela cidade recolhendo crianças depois das 21h e que, muitas vezes,  o próprio Vermelho deu abrigo dentro do cinema para que muitos menores não precisassem dormir na delegacia regional. Lembrou que, em sua memória de adolescente, assistiu a um dos mais clássicos filmes do cinema pornô mundial: “o Império dos sentidos”, o que causou um verdadeiro frenesi na cidade. Contou que era engraçado assistir ao Canal 100, pois, só 15 dias passados é que teriam condição de ver as imagens dos campeonatos brasileiros na telona; era uma verdadeira festa poder visualizar como fora o drible do seu jogador predileto, ouvido nas rádios: era impossível não sorrir ao ver a vinheta do Canal 100 que tinha uma bolinha em que os espectadores, dentro do cinema, tentavam cabecear.

Lembrou, com uma nostalgia voraz, dos filmes em preto e branco de Charlie Chaplin, de O Gordo e o Magro, e tantos outros que são referências para o cinema mundial, avaliando que tudo conspirava para que tivéssemos uma comunidade culturalmente potencial. Assistiu à Fuga de Alcatraz, Papillon, O Filho de Shaolin, e em relação a esse último, após a sessão, todos os espectadores se transformavam em verdadeiras caratecas. Não muito distante dali, logo após a saída do cinema, todos se encontravam no Clube dos Dois Minutos, quando ficavam reunidos para resenha do cinema, do brega da cidade, da boate hospício, só até às 11 da noite. Encerra sua fala lembrando dos grandes filmes que assistiu no cinema Maracanã ou Cine do seu Juca e lhe agradece (in memorian) por ter tido a sensibilidade de implementar na cidade um dos mais importantes equipamentos culturais de Buerarema.

Ao encerrar a noite, o mediador convida para que todos voltem à tela da televisão, do notebook, do celular, mas sem perder a magia do que fora o cinema para a vida de muitos bueraremenses.

Por fim, José Raimundo, popular Vermelho, ensaiando, recupera a locução que outrora se acostumou a fazer para anunciar o filme que estava em cartaz. Nostalgia pura: “- Senhoras e senhores, ao microfone Jota Raimundo...” Embalados pela música “O Milionário” encerrou-se mais uma transmissão de forma remota (on-line) mais uma edição de Histórias da Vila Macuco. Luz...câmera...ação. Um grande viva ao Cinema de Buerarema.

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Anderson Guimarães

Professor, Licenciado em Letras , Bacharel em Direito, Especialista em Leitura e Produção Textual. Especialista em Sexualidade Humana e Linguagem ,
Mestrando em Ciências Políticas, Gestor Cultural e Pós-graduando em Gestão Cultural.
Ator, Diretor, Produtor de Teatro, Produtor Cultural.                                                   Colaborador da Casa de Cultura Jonas & Pilar – Buerarema-BA,
Conselheiro do Instituto Macuco Jequitibá – Buerarema- BA e
Diretor-fundador de grupo de teatro A Tribo – Arte e Sensibilidade